A dona
Albertina, uma senhora idosa e já reformada, vivia sozinha no seu casarão de
três andares. Passava o dia inteiro sentada na sua cadeira de baloiço a
costurar camisolas de lã. Saía de casa geralmente uma ou duas vezes por semana
para comprar comida para os três gatos que lhe faziam companhia. Andava um
bocado até chegar à paragem de autocarros, e sentava-se, curvando a cabeça para
baixo, sem dirigir a palavra a ninguém. Esperava incansavelmente que o
autocarro chegasse, sempre sem se mexer, como se fosse uma estátua. Quando o
autocarro finalmente parava em frente à paragem, ela entrava, e novamente, sem
dizer nada a ninguém, sentava-se. Quando chegava à sua paragem, saía. Ia até ao
supermercado, pegava na comida, colocava-a num cesto e transportava-a até à
caixa de pagamento. Quando lhe diziam o preço, ela estendia a mão com algumas
moedas e entregava-as à pessoa que a atendia, sempre sem sequer olhar para ela.
Voltava a casa, dava de comer aos gatos, e sentava-se a costurar. Já tinha esta
rotina há muitos anos, desde a morte do marido. Agora que não tinha a sua
companhia, ela sentia-se sempre triste e sozinha.
Certo dia, quando estava sentada no
autocarro, foi abordada por uma rapariga nova, nos seus vinte e tal anos, muito
bem-disposta e sorridente, com cabelos curtos e loiros e olhos castanhos; era
magra e também muito baixinha. Mais baixa até do que a dona Albertina.
– Costumo vê-la aqui, neste
autocarro, sempre que regresso do trabalho – disse a moça – Reparei que nunca
costuma falar com ninguém. Está aborrecida com alguma coisa?
Alguns momentos de silêncio depois,
a velhota respondeu:
– A minha vida já não é o que era.
Quando tinha o meu marido comigo, nunca me aborrecia com nada. Ele trazia tanta
vida lá para casa!... Agora já não tenho a sua companhia e por isso é que ando
sempre assim.
– Sabe o que devia fazer para passar
o dia? Ler. Poesia, por exemplo, é bastante interessante.
O autocarro chegou à paragem final,
a dona Albertina saiu e a conversa ficou-se por ali.
A princípio não ligou, mas, passadas
algumas semanas, estava ela em casa sem nada para fazer, e decidiu pegar num
livro de poesia poeirento que tinha por lá. Começou a ler, e nunca mais
conseguiu parar. Passava agora o dia na companhia dos seus livros,
esquecendo-se até, por vezes, de alimentar os seus gatos. Balançava para a frente
e para trás, na sua cadeira, mas agora sorria. Sorria como já não o fazia desde
que o seu marido a tinha deixado.
Alexandre
9ºB
Texto sujeito a ligeiras alterações