domingo, 5 de janeiro de 2014

Uma emoção literária

Se clicarem aqui, poderão ver/folhear/ler um exemplar de 1572 de Os Lusíadas, que se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal. Trata-se, como podem ler em nota, de uma edição princeps (isto é, primeira edição),  conhecida por edição "Ee", pois a sétima estância da primeira estrofe inicia-se com a conjunção "e": "E entre gente remota edificarão". Note-se, ainda, na portada, a cabeça do pelicano voltada para a esquerda do observador. A edição "E" apresenta a variante "Entre gente remota edificarão" e a cabeça do pelicano está virada para a direita.
Os estudiosos de Os Lusíadas - os camonianos - consideram que ambas as edições, publicadas em vida do autor, sofreram correções (algumas terão ocorrido enquanto a obra estava ainda no prelo), razão pela qual a versão que agora estudamos inclui variantes de uma e outra edição.


 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Camões e a botânica

Assisti, no ano passado, a uma interessantíssima conferência do Doutor Jorge Paiva, investigador da Universidade de Coimbra, acerca da botânica na lírica e épica camonianas. Numa breve pesquisa sobre o assunto, sobremaneira interessante, encontrei em http://www.uc.pt/noticias/02_NL_2011/07_2011/camoes_plantas/ o seguinte:
 
«Da épica à lírica - as plantas na obra de Camões
 
A presença das plantas na obra camoniana surge da curiosidade natural de um botânico em “saber se a literatura e a poesia” a usaram muito. Jorge Paiva, investigador do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, decidiu “por curiosidade” e após já ter analisado o assunto n’Os Lusíadas, alargar o seu estudo a toda a obra poética de Camões e ver quais as plantas que este cita na sua lírica”.
Os formosos limões ali, cheirando,
Estão virgíneas tetas imitando
Canto IX, estrofe 56, Os Lusíadas de Luís de Camões

“Verdes são os campos,
Da cor do limão:
Assim como os olhos
Do meu coração”
Luís de Camões
 
O poeta é o mesmo, a planta também, mas a forma como é citada na sua obra é completamente diferente. É nesta comparação que Jorge Paiva nos explica as diferenças entre as plantas citadas na épica e na lírica de Camões. N’Os Lusíadas, o autor cita o limão pelo seu aroma e pela sua forma, já na lírica cita o limão pela sua cor relacionando-o com a cor dos olhos da pessoa amada. Seguindo esta premissa, o investigador a afirma que as plantas camonianas citadas “na épica são plantas relacionadas com a história, os descobrimentos, o novo mundo, geralmente plantas aromáticas, medicinais, especiarias e plantas bíblicas”; quanto às plantas camonianas citadas na lírica o botânico afirma que “estão relacionadas com o amor, a sua vivência amorosa, os sítios por onde andou e são fundamentalmente flores”.

Para reconhecer e identificar as plantas citadas na lírica camoniana, Jorge Paiva teve de estudar toda a obra e a “vivência de Camões” e tentar descobrir “quando e onde foram escritos os poemas”, uma vez que para identificar “por exemplo um carvalho, tenho de saber se estava nas margens do Mondego ou em Lisboa quando escreveu a ode ou o soneto”.

O botânico afirma que além das flores (como a rosa, o cravo, a violeta, o lírio e a açucena), na lírica podemos encontrar algumas árvores de fruto (como a macieira) e “algumas árvores muito importantes da nossa floresta (como o carvalho, o choupo, o castanheiro ou o amieiro).

Estudar toda a obra permite ao investigador descobrir pelas descrições do poeta, quando este não nomeia diretamente a planta. Os versos “Üa árvore se conhece/que, na geral alegria,/ela só tanto entristece/que como é noite, florece,/e perde as flores de dia.” causaram estranheza ao botânico, uma vez que este não conhece em Portugal “nenhuma árvore que floresça de dia e cujas flores no dia seguinte estejam fechadas”, mas, posteriormente, ao ler outros os versos - “Escrevem vários autores/que, junto de clara fonte/do Ganges, os moradores/vivem do cheiro das flores/que nacem naquele monte.” - descobriu tratar-se da Nyctanthes arbor-tristis (vulgarmente chamada de árvore triste). Ou ainda como no caso da Tribulus terrestres, identificada através dos versos “Vi terra florida/De lindos abrolhos,/Lindos pera os olhos,/Duros pera a vida;/Mas a rês perdida/Que tal erva paste/Em forte hora nasce” e “As flores me torna abrolhos,/a morte me determina”.

O seu conhecimento de toda a obra camoniana possibilita ao botânico afirmar que alguns poemas atribuídos ao poeta não são da sua autoria, como é o caso de “Vergel de Amor”, obra onde surgem citadas, por vezes, várias plantas por estrofe, algo que não é característico de Camões, assim como plantas que o poeta nunca citara antes como o rosmaninho e as giestas “Não podem dois opostos juntos ser,/onde se opõem giestas, que é lembrança,/junto do rosmaninho, que é crecer”.

Sendo assim, Jorge Paiva acrescenta que existem plantas citadas por Camões que ainda não conseguiu identificar, afirmando que necessita do acompanhamento de um camoniano para o ajudar na tarefa. No entanto, ambiciona escrever para comparar a épica e a lírica, publicar a lista das plantas camonianas, aquelas que tem certeza absoluta de ter identificado, as que só se podem citar por género e as que, certamente, não são camonianas.

Enquanto tal não acontece, podemos satisfazer a curiosidade sobre as plantas citadas n’Os Lusíadas e aprender um pouco mais sobre o génio de Camões aqui.

Por Sandrina Fernandes»

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Votos

Aos meus alunos em particular, e à comunidade educativa em geral, desejo um bom ano de 2013.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Desafio interessante N.º 5

Concurso interativo de escrita criativa
Tema: prevenção do colo do útero
Promoção: Liga Portuguesa contra o Cancro
Responsável pelas inscrições da/na escola: professora Berta Henriques

Serão formados vários grupos de cinco elementos. Os concorrentes assinalados com o n.º1 receberão um documento "Word" com o nome do grupo e darão início a uma história cujo tema será o cancro do colo do útero. Terá um prazo de 24 horas para reenviar o texto, que será remetido ao concorrente n.º 2, e assim sucessivamente, perfazendo três rondas até à conclusão da história. Cada participação terá um mínimo de 300 e um máximo de 3000 palavras. os concorrentes que não cumpram os prazos serão excluídos.
 
Aqui está um concurso interessante, em que, além de criatividade, os participantes devem mostrar disciplina, autocontrolo e espírito de interajuda.  


Imagem retirada de http://www.pop.eu.com/uploads/images/PROF%20SAUDE/01_NEWS/LigaPtContraCancro_GRD.jpg

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Madiba, presidente do mundo inteiro (Miguel Esteves Cardoso)

Quando falámos de crónicas, falámos, fatalmente, de Miguel Esteves Cardoso (MEC, para os iniciados - ou para os que querem parecê-lo). No Público de sábado encontrei o melhor obituário* de Nelson Mandela que li (é verdade que li poucos, porque, com os testes, não tenho tempo se não para folhear os jornais... e mal.)
 

Por não ser um santo

«Todos os ribeiros e rios do mundo vão dar ao mar, porque o mar é mais baixo. É esta humildade que dá poder ao mar". Lembrei-me destes versos atribuídos a Lao Tzu quando soube da morte de Nelson Mandela.
São muitas as traduções e muitas as dúvidas de autoria, mas sabe-se que palavras parecidas com estas foram escritas na China meio milénio antes de começar o calendário cristão. Mandela também não há-de ser esquecido tão cedo.
Morreu a única pessoa que poderia ter sido presidente do mundo inteiro. Toda a gente gostava dele porque era um ser humano – e não um santo – que soube partilhar a imensa humanidade dele com toda a humanidade, incluindo os inimigos, que eram muito mais do que os amigos.
Choro não só os anos em que esteve preso como todo o tempo que ele perdeu a receber e a cumprimentar políticos, celebridades e outros desconhecidos.
Sorrio ao pensar no prazer que Mandela tinha em ser politicamente incorrecto. Foi um espírito livre até ao fim. Estava sempre a fugir à linha americana e aos lugares-comuns da diplomacia europeia. Apoiou sempre o velho amigo Robert Mugabe e outros ditadores e regimes a que os poderes ocidentais prefeririam que ele se opusesse.
Todos tentarão agora redefinir Mandela conforme as conveniências políticas. Eu hei-de sempre lembrar-me dele como um excêntrico, um rebelde, um não-conformista, um inovador: um grande ser humano e um grande conhecedor dos seres humanos mais pequenos do que ele. Por ser um homem.
"Todos os ribeiros e rios do mundo vão dar ao mar, porque o mar é mais baixo. É esta humildade que dá poder ao mar". Lembrei-me destes versos atribuídos a Lao Tzu quando soube da morte de Nelson Mandela.
São muitas as traduções e muitas as dúvidas de autoria, mas sabe-se que palavras parecidas com estas foram escritas na China meio milénio antes de começar o calendário cristão. Mandela também não há-de ser esquecido tão cedo.
Morreu a única pessoa que poderia ter sido presidente do mundo inteiro. Toda a gente gostava dele porque era um ser humano – e não um santo – que soube partilhar a imensa humanidade dele com toda a humanidade, incluindo os inimigos, que eram muito mais do que os amigos.
Choro não só os anos em que esteve preso como todo o tempo que ele perdeu a receber e a cumprimentar políticos, celebridades e outros desconhecidos.
Sorrio ao pensar no prazer que Mandela tinha em ser politicamente incorrecto. Foi um espírito livre até ao fim. Estava sempre a fugir à linha americana e aos lugares-comuns da diplomacia europeia. Apoiou sempre o velho amigo Robert Mugabe e outros ditadores e regimes a que os poderes ocidentais prefeririam que ele se opusesse.
Todos tentarão agora redefinir Mandela conforme as conveniências políticas. Eu hei-de sempre lembrar-me dele como um excêntrico, um rebelde, um não-conformista, um inovador: um grande ser humano e um grande conhecedor dos seres humanos mais pequenos do que ele. Por ser um homem.»
 
* Obituário/necrologia: texto sobre a morte de alguém ou sobre alguém que morreu recentemente. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/obituário [consultado em 10-12-2013].

Imagem recolhida em http://b-i.forbesimg.com/mfonobongnsehe/files/2013/12/Mandela.jpg, texto extraído de http://www.publico.pt/autor/miguel-esteves-cardoso

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O paradigma da manhã


Acordei. Eram oito e meia. O retardado do despertador decidiu ficar sem pilhas. Já devia estar no trabalho e ainda nem vestida estou. Corro para o meu armário e enfio a primeira peça de roupa que encontro. Vou ao quarto do Artur para o acordar e ele não está lá. Entro em pânico e procuro-o por toda a casa. Ouvi algo. Acabei por encontrá-lo na casa de banho. Disse ao meu pequeno para se ir vestir. Vou para a cozinha tomar o pequeno-almoço e dou de caras com o Artur a ver ''Teletubbies''. Já lhe tinha dito que estávamos atrasados! Agarrei nele e corri até ao carro.
Estava um dia de chuva, o que me deixou ainda mais frustrada. No caminho para deixar o meu filho na escola, fico retida no trânsito, como sempre. O Artur continua a berrar porque não deixei que ele acabasse de ver a porcaria dos bonecos. O barulho dos carros começa a ''ofuscar-me''. Pelos vistos houve um acidente. Abro o vidro para apanhar um bocado de ar e deparo-me com um homem gordo, de longos cabelos, numa carrinha branca. Tinha alguns ''piercings'', tatuagens obscenas, usava um casaco de cabedal. Olhava para mim como se eu fosse uma tarte e sorria. Fechei o vidro, confusa e assustada. Ligo o rádio para me abstrair daquele indivíduo estranho, e ouço a notícia. Percebo o porquê de ele estar a sorrir. Olho para ele e sorrio de volta.
Acreditam que, a seguir a isto, o meu dia foi inquestionavelmente perfeito...?


Trabalho realizado por:
-David, nº9;
-Duarte, nº10;
-Eva, nº11;
-Filipe, nº12;
9ºA

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Desafio interessante n.º4

A obra escolhida pela escola para o Concurso Nacional e leitura (categoria 3º ciclo) foi Os livros que devoraram o meu pai, de Afonso Cruz.
Uma vez que (ainda) não li o livro, fui ao sítio da Fundação Gulbenkian, onde Rita Taborda Duarte dá conta, nos seguintes termos, do prémio Maria Rosa Colaço, atribuído em 2009 a esta obra pela Câmara Municipal de Almada:
 
«É um livro que se multiplica em viagens, mas desta vez literais e não simplesmente metafóricas, por livros indispensáveis da literatura universal (juvenil e não só). Trata-se da história de Elias Bonfim, que parte páginas adentro, em busca do pai, que se perdeu nos livros que lia, ou que, no fundo, se deixou devorar pelos livros que devorava. O rapaz de doze anos percorre rigorosamente, no sentido exacto das palavras, a enorme biblioteca, que pertencera ao pai, no sótão da avó. Começa pela ilha do Dr. Moreau, de H.G.Wells, e daí para Stevenson, Dostoievski, Italo Calvino, Bradbury ou Borges foi um salto, que não deixou de lado a Bíblia, a Divina Comédia ou as pequenas narrativas de Lao Tse, que assombram a vida de Elias Bonfim, mesmo no mundo real, fora dos livros, se é que existe vida fora deles. A dado momento, aliás, é Raskolnikov, o próprio protagonista de Crime e Castigo que explica: As "personagens de carne são exactamente como nós, os de papel e letras negras" (...)»
 A Bíblia? Nada que a Matilde não conheça. H.G. Wells? Não foi o Diogo que me falou de A guerra dos mundos? Borges? Não é o José que escreve quase, quase, como o Borges? Um livro sobre livros? Como os contos que a Filipa, a Maria,  ou o Alexandre escreveram? (e estou a ser injusta, a deixar belas histórias de fora). O que eu quero dizer é que me parece que o universo de Afonso Cruz nos vai agradar, e muito.
Podem encontrar aqui o regulamento do concurso.
 

Imagem recolhida em http://p3.publico.pt/sites/default/files/RG-A-Cruz-10-050612.jpg