domingo, 12 de janeiro de 2014

Croniqueta de Ano Novo


Receita para um bom Ano Novo

Há quem diga que a passagem de ano é a passagem para uma nova vida, com coisas novas, com as quais sonhamos durante montes de tempo e que, não sei porquê, só se devem concretizar a partir do momento em que a contagem decrescente chega ao zero e o mundo se torna verde, azul, roxo, cor-de-rosa às pintinhas amarelas, entre muitas outras cores - e as pessoas festejam por todo o lado como loucas. Esse é o Ano Novo perfeito no qual todos os nossos sonhos se tornam realidade e em que aqueles que amamos estão do nosso lado para o que der e vier. Dentro de cada um de nós existe algo que escondemos, algum sonho perdido no meio de tudo aquilo que temos no cérebro. O Ano Novo serve para isso mesmo; viver aquilo que vai na nossa mente e torná-lo real.

Ano Novo, vida nova! 

 Mariana  
(texto sujeito a ligeiras alterações)                                                                 1

domingo, 5 de janeiro de 2014

TPC para este fim de semana

Tendo em conta o poema "Receita de Ano Novo" de Carlos Drummond de Andrade, e ainda o poema de Reinaldo Ferreira abaixo transcrito, elabora uma receita criativa para o próximo ano novo. O texto tanto pode ser em prosa como em verso, mas deve ser estruturado de acordo com os elementos próprios do texto instrucional: título, ingredientes, modo de preparação.
 
Datas de entrega: 9ºB - 13/1/2014; 9º A e C - 14/1/2014
Formato: folha à parte ou - melhor ainda - mensagem eletrónica.

Receita para fazer um herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome,

Depois, perto do fim,
Levanta-se um pendão,
E toque-se um clarim...

Serve-se morto.

(Reinaldo Ferreira in Poemas)

Votos de um bom ano com Drummond e Ravel

«Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.»

Nótulas sobre Carlos Drummond de Andrade

1. A propósito de "Poema das sete faces":

Chico Buarque inspira-se em Carlos Drummond de Andrade

http://www.youtube.com/watch?v=GSe8csRcB64

2. A propósito de "No meio do caminho":

Nota final do Autor da Antologia Poética
"Fui muito criticado e ridicularizado quando jovem. O meu poema «No meio do caminho», composto de dez versos, repete de propósito sete vezes as palavras «tinha» e «pedra», e seis vezes as palavras «meio» e «caminho». Isto foi julgado escandaloso; hoje o poema está traduzido em 17 línguas, e me diverti publicando um livro de 194 páginas contendo as descomposturas mais indignadas contra ele, e também os elogios mais entusiásticos. Achavam-me idiota ou palhaço (...)"
 
3. No final da canção "Na flor da idade", Chico Buarque recorre, novamente, à intertextualidade ("Quadrilha"):

Um retrato fidedigno de Luís Vaz de Camões...

... o único feito em vida do poeta, é o de Fernão Gomes.

Uma emoção literária

Se clicarem aqui, poderão ver/folhear/ler um exemplar de 1572 de Os Lusíadas, que se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal. Trata-se, como podem ler em nota, de uma edição princeps (isto é, primeira edição),  conhecida por edição "Ee", pois a sétima estância da primeira estrofe inicia-se com a conjunção "e": "E entre gente remota edificarão". Note-se, ainda, na portada, a cabeça do pelicano voltada para a esquerda do observador. A edição "E" apresenta a variante "Entre gente remota edificarão" e a cabeça do pelicano está virada para a direita.
Os estudiosos de Os Lusíadas - os camonianos - consideram que ambas as edições, publicadas em vida do autor, sofreram correções (algumas terão ocorrido enquanto a obra estava ainda no prelo), razão pela qual a versão que agora estudamos inclui variantes de uma e outra edição.


 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Camões e a botânica

Assisti, no ano passado, a uma interessantíssima conferência do Doutor Jorge Paiva, investigador da Universidade de Coimbra, acerca da botânica na lírica e épica camonianas. Numa breve pesquisa sobre o assunto, sobremaneira interessante, encontrei em http://www.uc.pt/noticias/02_NL_2011/07_2011/camoes_plantas/ o seguinte:
 
«Da épica à lírica - as plantas na obra de Camões
 
A presença das plantas na obra camoniana surge da curiosidade natural de um botânico em “saber se a literatura e a poesia” a usaram muito. Jorge Paiva, investigador do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, decidiu “por curiosidade” e após já ter analisado o assunto n’Os Lusíadas, alargar o seu estudo a toda a obra poética de Camões e ver quais as plantas que este cita na sua lírica”.
Os formosos limões ali, cheirando,
Estão virgíneas tetas imitando
Canto IX, estrofe 56, Os Lusíadas de Luís de Camões

“Verdes são os campos,
Da cor do limão:
Assim como os olhos
Do meu coração”
Luís de Camões
 
O poeta é o mesmo, a planta também, mas a forma como é citada na sua obra é completamente diferente. É nesta comparação que Jorge Paiva nos explica as diferenças entre as plantas citadas na épica e na lírica de Camões. N’Os Lusíadas, o autor cita o limão pelo seu aroma e pela sua forma, já na lírica cita o limão pela sua cor relacionando-o com a cor dos olhos da pessoa amada. Seguindo esta premissa, o investigador a afirma que as plantas camonianas citadas “na épica são plantas relacionadas com a história, os descobrimentos, o novo mundo, geralmente plantas aromáticas, medicinais, especiarias e plantas bíblicas”; quanto às plantas camonianas citadas na lírica o botânico afirma que “estão relacionadas com o amor, a sua vivência amorosa, os sítios por onde andou e são fundamentalmente flores”.

Para reconhecer e identificar as plantas citadas na lírica camoniana, Jorge Paiva teve de estudar toda a obra e a “vivência de Camões” e tentar descobrir “quando e onde foram escritos os poemas”, uma vez que para identificar “por exemplo um carvalho, tenho de saber se estava nas margens do Mondego ou em Lisboa quando escreveu a ode ou o soneto”.

O botânico afirma que além das flores (como a rosa, o cravo, a violeta, o lírio e a açucena), na lírica podemos encontrar algumas árvores de fruto (como a macieira) e “algumas árvores muito importantes da nossa floresta (como o carvalho, o choupo, o castanheiro ou o amieiro).

Estudar toda a obra permite ao investigador descobrir pelas descrições do poeta, quando este não nomeia diretamente a planta. Os versos “Üa árvore se conhece/que, na geral alegria,/ela só tanto entristece/que como é noite, florece,/e perde as flores de dia.” causaram estranheza ao botânico, uma vez que este não conhece em Portugal “nenhuma árvore que floresça de dia e cujas flores no dia seguinte estejam fechadas”, mas, posteriormente, ao ler outros os versos - “Escrevem vários autores/que, junto de clara fonte/do Ganges, os moradores/vivem do cheiro das flores/que nacem naquele monte.” - descobriu tratar-se da Nyctanthes arbor-tristis (vulgarmente chamada de árvore triste). Ou ainda como no caso da Tribulus terrestres, identificada através dos versos “Vi terra florida/De lindos abrolhos,/Lindos pera os olhos,/Duros pera a vida;/Mas a rês perdida/Que tal erva paste/Em forte hora nasce” e “As flores me torna abrolhos,/a morte me determina”.

O seu conhecimento de toda a obra camoniana possibilita ao botânico afirmar que alguns poemas atribuídos ao poeta não são da sua autoria, como é o caso de “Vergel de Amor”, obra onde surgem citadas, por vezes, várias plantas por estrofe, algo que não é característico de Camões, assim como plantas que o poeta nunca citara antes como o rosmaninho e as giestas “Não podem dois opostos juntos ser,/onde se opõem giestas, que é lembrança,/junto do rosmaninho, que é crecer”.

Sendo assim, Jorge Paiva acrescenta que existem plantas citadas por Camões que ainda não conseguiu identificar, afirmando que necessita do acompanhamento de um camoniano para o ajudar na tarefa. No entanto, ambiciona escrever para comparar a épica e a lírica, publicar a lista das plantas camonianas, aquelas que tem certeza absoluta de ter identificado, as que só se podem citar por género e as que, certamente, não são camonianas.

Enquanto tal não acontece, podemos satisfazer a curiosidade sobre as plantas citadas n’Os Lusíadas e aprender um pouco mais sobre o génio de Camões aqui.

Por Sandrina Fernandes»