«Em pequeno sonhava muitas vezes
que voava. Era assim: estava muito bem com as pessoas, no quintal ou na sala, e
nisto desinteressava-me da conversa
(as pessoas falavam sempre nos
meus sonhos)
voltava-lhes as costas, dava um
pulinho, abria os braços e principiava a flutuar. O sonho tornava-se tão real
que ainda hoje me lembro da nitidez das coisas vistas de cima: a casa, as
árvores, as outras casas, a rua, a família a jogar canasta sob um guarda-sol, o
caramanchão do lago, e eu para aqui e para ali como uma folha de bétula no Outono.
Só não me recordo de como esses sonhos acabavam. Depois devo ter crescido muito
depressa porque, durante anos, não tornei a voar, e os meus sonhos ficaram
escuros de um desespero triste, deixando-me por algum tempo, já desperto, numa
indagação sem paz. Foi na época em que começava a barbear-me e me admirava de
possuir cabelo loiro e uns pelitos pretos na cara. Uma ocasião li num livro que
D. João de Castro, ao ver um homem de cabelo preto e barba branca, comentou que
ele pensava mais com o queixo do que com a cabeça. Esta frase acompanhou-me algum
tempo e até hoje julgava ter-me esquecido dela. Existe tanta coisa que cuidava
esquecida e que, de súbito, me regressa à ideia. O pai da minha mãe, por
exemplo, a ler o jornal na varanda de Nelas.»
Em pequeno sonhava muitas vezes
que voava. Era assim: estava muito bem com as pessoas, no quintal ou na sala e, nisto,
desinteressava-me da conversa.
(as pessoas falavam sempre nos
meus sonhos)
Voltava-lhes
as costas, dava um pulinho, abria os braços… e
principiava a flutuar. O sonho tornava-se tão real,
que ainda hoje me lembro da nitidez das coisas vistas de cima: a casa, as
árvores, as outras casas, a rua, a família a jogar canasta sob um guarda-sol, o
caramanchão do lago, e eu para aqui e para ali,
como uma folha de bétula no Outono. Só não me recordo de como esses sonhos
acabavam. Depois devo ter crescido muito depressa porque, durante anos, não
tornei a voar, e os meus sonhos ficaram escuros de um desespero triste,
deixando-me por algum tempo, já desperto, numa indagação sem paz. Foi na época
em que começava a barbear-me e me admirava de possuir cabelo loiro e uns
pelitos pretos na cara. Uma ocasião li num livro que D. João de Castro, ao ver
um homem de cabelo preto e barba branca, comentou que ele pensava mais com o
queixo do que com a cabeça. Esta frase acompanhou-me algum tempo e, até hoje, julgava
ter-me esquecido dela. Existe tanta coisa que cuidava esquecida e que, de súbito,
me regressa à ideia… O pai da minha mãe, por
exemplo, a ler o jornal na varanda de Nelas.
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