quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Pontuação (duas alternativas)


«Em pequeno sonhava muitas vezes que voava. Era assim: estava muito bem com as pessoas, no quintal ou na sala, e nisto desinteressava-me da conversa

(as pessoas falavam sempre nos meus sonhos)

voltava-lhes as costas, dava um pulinho, abria os braços e principiava a flutuar. O sonho tornava-se tão real que ainda hoje me lembro da nitidez das coisas vistas de cima: a casa, as árvores, as outras casas, a rua, a família a jogar canasta sob um guarda-sol, o caramanchão do lago, e eu para aqui e para ali como uma folha de bétula no Outono. Só não me recordo de como esses sonhos acabavam. Depois devo ter crescido muito depressa porque, durante anos, não tornei a voar, e os meus sonhos ficaram escuros de um desespero triste, deixando-me por algum tempo, já desperto, numa indagação sem paz. Foi na época em que começava a barbear-me e me admirava de possuir cabelo loiro e uns pelitos pretos na cara. Uma ocasião li num livro que D. João de Castro, ao ver um homem de cabelo preto e barba branca, comentou que ele pensava mais com o queixo do que com a cabeça. Esta frase acompanhou-me algum tempo e até hoje julgava ter-me esquecido dela. Existe tanta coisa que cuidava esquecida e que, de súbito, me regressa à ideia. O pai da minha mãe, por exemplo, a ler o jornal na varanda de Nelas.»

 

Em pequeno sonhava muitas vezes que voava. Era assim: estava muito bem com as pessoas, no quintal ou na sala e, nisto, desinteressava-me da conversa.

(as pessoas falavam sempre nos meus sonhos)

Voltava-lhes as costas, dava um pulinho, abria os braços e principiava a flutuar. O sonho tornava-se tão real, que ainda hoje me lembro da nitidez das coisas vistas de cima: a casa, as árvores, as outras casas, a rua, a família a jogar canasta sob um guarda-sol, o caramanchão do lago, e eu para aqui e para ali, como uma folha de bétula no Outono. Só não me recordo de como esses sonhos acabavam. Depois devo ter crescido muito depressa porque, durante anos, não tornei a voar, e os meus sonhos ficaram escuros de um desespero triste, deixando-me por algum tempo, já desperto, numa indagação sem paz. Foi na época em que começava a barbear-me e me admirava de possuir cabelo loiro e uns pelitos pretos na cara. Uma ocasião li num livro que D. João de Castro, ao ver um homem de cabelo preto e barba branca, comentou que ele pensava mais com o queixo do que com a cabeça. Esta frase acompanhou-me algum tempo e, até hoje, julgava ter-me esquecido dela. Existe tanta coisa que cuidava esquecida e que, de súbito, me regressa à ideia O pai da minha mãe, por exemplo, a ler o jornal na varanda de Nelas.

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