quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Na companhia da poesia


 
A dona Albertina, uma senhora idosa e já reformada, vivia sozinha no seu casarão de três andares. Passava o dia inteiro sentada na sua cadeira de baloiço a costurar camisolas de lã. Saía de casa geralmente uma ou duas vezes por semana para comprar comida para os três gatos que lhe faziam companhia. Andava um bocado até chegar à paragem de autocarros, e sentava-se, curvando a cabeça para baixo, sem dirigir a palavra a ninguém. Esperava incansavelmente que o autocarro chegasse, sempre sem se mexer, como se fosse uma estátua. Quando o autocarro finalmente parava em frente à paragem, ela entrava, e novamente, sem dizer nada a ninguém, sentava-se. Quando chegava à sua paragem, saía. Ia até ao supermercado, pegava na comida, colocava-a num cesto e transportava-a até à caixa de pagamento. Quando lhe diziam o preço, ela estendia a mão com algumas moedas e entregava-as à pessoa que a atendia, sempre sem sequer olhar para ela. Voltava a casa, dava de comer aos gatos, e sentava-se a costurar. Já tinha esta rotina há muitos anos, desde a morte do marido. Agora que não tinha a sua companhia, ela sentia-se sempre triste e sozinha.
            Certo dia, quando estava sentada no autocarro, foi abordada por uma rapariga nova, nos seus vinte e tal anos, muito bem-disposta e sorridente, com cabelos curtos e loiros e olhos castanhos; era magra e também muito baixinha. Mais baixa até do que a dona Albertina.
            – Costumo vê-la aqui, neste autocarro, sempre que regresso do trabalho – disse a moça – Reparei que nunca costuma falar com ninguém. Está aborrecida com alguma coisa?
            Alguns momentos de silêncio depois, a velhota respondeu:
            – A minha vida já não é o que era. Quando tinha o meu marido comigo, nunca me aborrecia com nada. Ele trazia tanta vida lá para casa!... Agora já não tenho a sua companhia e por isso é que ando sempre assim.
            – Sabe o que devia fazer para passar o dia? Ler. Poesia, por exemplo, é bastante interessante.
            O autocarro chegou à paragem final, a dona Albertina saiu e a conversa ficou-se por ali.
            A princípio não ligou, mas, passadas algumas semanas, estava ela em casa sem nada para fazer, e decidiu pegar num livro de poesia poeirento que tinha por lá. Começou a ler, e nunca mais conseguiu parar. Passava agora o dia na companhia dos seus livros, esquecendo-se até, por vezes, de alimentar os seus gatos. Balançava para a frente e para trás, na sua cadeira, mas agora sorria. Sorria como já não o fazia desde que o seu marido a tinha deixado.

 
Alexandre 9ºB

Texto sujeito a ligeiras alterações

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